Sobre fertilizantes e desarmamento

Um corpo fino, com ombros e cabeça pendentes, como uma flor que já perdeu o viço. O homem parecia que havia murchado. O quadril pronunciado para frente servia de apoio para as mãos pousadas na cintura, fazendo com que os braços lembrassem folhas saindo de um caule magro.

Se lembrasse apenas uma flor, seria poético. Mas era áspero como um filme de bang-bang no deserto. E que flor nasce em areias escaldantes? Poderia, no máximo, ser um cacto se melhorasse a postura. Espinhos já tinha. Mas projetar, daquele jeito, o quadril para frente dava mais a impressão de que sacaria uma arma.

Assim como os caipiras pistoleiros, sempre fazia cara de intimação. Olhava as pessoas de cima, porque mesmo murcho era alto e conseguia ver o topo de suas cabeças. E aquilo o fazia crescer, ainda que curvado. Ver o cocuruto de toda a gente era um poder inexplicável. Era como ser um girassol perto de marias-sem-vergonha, ele que não tinha vergonha de nada.

Não se importava de ser mal-encarado como um atirador da velha Hollywood. Tampouco percebia que era como um solo infértil. Os espinhos nunca deixaram um beija-flor se aproximar. E assim acabou se acostumando com seu deserto particular e, embora se considerasse um girassol, só olhava de cima para baixo, nunca o contrário. O que ele não sabia era que as flores, com o tempo, ficam despetaladas. Inevitavelmente, mostram ao mundo o seu miolo. A seiva deixa de percorrer seu corpo e elas ficam cada vez mais vulneráveis, como um bandido de bang-bang que se distrai e leva um tiro.

Um dia o vento sopra e leva a última pétala. Qualquer dia, o mocinho aperta o gatilho e gasta sua última bala. Daqui a pouco o beija-flor se aproxima da falta de espinhos. Ele pensa que perdeu seu escudo. Mas vejam: está, apenas, desarmado.

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Liqüidação

No liqüidificador da vida, a água vem em onda, marola, redemoinho. Sempre líqüida. Nos deixa em estado de ebulição, de fervor, de gelo no vapor. Inunda a sala, o quarto e entra no sapato. Encrespa o cabelo, cola a roupa e faz bolha. Embaça o espelho. Deixa o caminho escorregadio. Sempre líqüida. Carrega o milagre no esperma. Esvai a esperança na menstruação. Destila a tristeza e a alegria incontida na lágrima. Degusta, na saliva, os (dis)sabores da estrada. Expulsa o mal pela urina. Corre a vida pelo sangue. Sempre líqüida.

Não seque a água. Ou tudo estará liqüidado.

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Dessa coisa louca de não ter rosto

Eu não tenho olhos, nem boca, nem pernas. Para você eu sou apenas um vulto, caminhando assim, tranqüilamente, no mundo das idéias de Platão. Eu existo porque sou idéia ou a idéia existe porque eu sou? Você nunca vai saber, nem eu. Porque você, para mim, é a mesma coisa. É essa virtualidade imensa que me faz pensar nessa coisa louca de não ter rosto. Eu lhe desenho e você faz um esboço de mim. É o máximo que alcançaremos. Depois disso, desligamos o transformador e deixamos de existir.

O seu não-mundo é de que cor? Quando eu me despeço de você fica tudo púrpura, parece céu em fim de tarde. O sol vai esquecendo de brilhar e eu de pensar em você. Esqueço que você respira, come, digita, é vivo. Porém é logo que chega o dia seguinte e, junto com as tomadas, nos conectamos novamente. Que maravilha ser moderno-da-revolução-tecnológica! Me conte as novidades!

Mas aí você propõe me conhecer, pede foto ou presença. Não confunda as coisas! Sou etérea e, você, virtual; não entendeu? Já me conhece muito bem, pois sabe o que vai aqui dentro. Da carcaça você nunca precisou. Uma breve descrição eu posso dar, porque sei que você jamais chegará à verdade absoluta. Prefiro que me deixe quietinha no plano da imaginação, pode ser?

Mas deixa essa discussão para amanhã, porque preciso ir. Já gastei energia demais por hoje, se é que você me entende.

Que venha o púrpura!

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Sala de espera

A chatice dos rostos deixava claro o que a espera fazia com a sala. Por detrás da porta azul-bebê, o silêncio dos corpos invadidos em exames, análises, biópsias – braços e pernas moles, regados em sedativos, simulando o sono dos justos. Do lado de cá, acompanhantes de pés balançantes miravam o teto como que a filosofar, embora os olhos vazios denunciassem o aborrecimento de não se conseguir pensar em nada.

Sons entediantes e repetitivos por vezes se sobressaíam às respirações: tocava o telefone, batia a sola do sapato no chão, soava estridente a campaínha, viravam-se as folhas das revistas num vlap-vlap incessante. Alguém, então, resolveu abafá-los todos.

A televisão clareou acima das cabeças enfastiadas. Fizeram-se o som, as cores e os movimentos. Abruptamente, os pés pararam de sacolejar, as mãos acalmaram e os olhos atentaram. As faces chatas arredondaram. Era um riso obrigatório que passava na tela em linhas curvas e coloridas. Era animado, o desenho!

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Metalinguagem

Quando te li, te amei. Instantaneamente. Tuas letras passaram a ser a melhor das minhas hipóteses. Teus argumentos, a ênfase dos meus diálogos. Tuas reticências me deram ares de pensar infinito. As interrogações inquietaram as dúvidas adormecidas. As exclamações elevaram a alma achatada pelo peso da existência.

Ah, inspiração que não se cansa! Que passeia por tuas linhas e entrelinhas, tal qual pássaro que se esconde entre as árvores do bosque sombrio. Tu não sabes o que fizeste, certamente. Uma parada nas vírgulas e o retorno é inevitável. A hora, inadiável. O alimento que é a tua palavra tornou-se essencial.

Sentenças de morte. Orações subordinadas dos céus. Eu nasci para outra vida. Dois pontos, atenção. Meu verbo é ler.

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Relationship

Eu não me importei quando você deu as costas e foi para o outro cômodo. Eu não me importei quando você pareceu não ouvir meus apelos e fez tudo ali mesmo. Eu não me importei quando correu para a liberdade da rua que meu teto não parecia lhe dar. Eu não me importei quando me feriu com a raiva que não conseguia mais suportar.

Eu não me importei com os constragimentos na frente das visitas. Eu não me importei com as noites mal dormidas por causa daquela sua mania de “barulhar”. Eu não me importei com os móveis quebrados nem com meu patrimônio abalado. Eu não me importei com o seu espaço no meu cobertor. Eu não me importei com as minhas posses em sua posse. Eu não me importei com a sua falta de conhecimentos específicos. Eu não me importei com a sua mais alta energia na hora da minha estafa. Eu não me importei com sua chantagem emocional da hora do jantar.

Eu não me importei de não saber mais o que é ser sozinho. Mas chegou esse dia em que olho e não vejo sua presença, apenas o seu não-voltar. Ah, cão amigo, como importa a sua ausência!

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Ramerrame

Na indolência da rotina, o ânimo esmaecido, o itinerário previsto, o despertador tocado.

No clichê da manhã, a cafeína desassossegada, o colarinho com gravata, o vai-com-deus-e-não-demore.

Na atrofia do escritório, a reunião desmarcada, o grampeador quebrado, o chefe tresloucado.

Na enunciação da avenida, o freio nervoso, as rodas engarrafadas, as testas enrugadas.

Na conciliação do bar, os ombros roçantes, o bate-garrafa, as choradeiras alcoólicas.

Na desfaçatez da noite, a angústia comedida, a culpa arrependida, o cansaço distraído.

No axioma do travesseiro, a mente poluída, o corpo derretido, o samba horizontal.

Na incongruência dos sonhos, os nomes trocados, a mecânica desacertada, a alma emancipada.

Na indolência da rotina, o ânimo esmaecido, o itinerário previsto, o despertador tocado.

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