Brumas

No apartamento pequeno, escasso de outras existências a não ser a dela própria, o único sinal de vida vinha da janela. A grande esquadria trazia sons distantes da rua, que ficava nove andares abaixo. Quando oprimida por sentimentos desconhecidos, a moça deitava no sofá apontando os pés para a janela. Sua única visão era o céu e um pedaço pequeno de um prédio à distância.

Com o tempo e com a solidão, as impressões desconhecidas passaram a ser o que de mais conhecido havia para ela. Era como se o apartamento fosse feito apenas da janela, da moça e do sofá. Um triângulo das Bermudas, onde tudo o mais desaparecia e não havia histórias de sobreviventes para contar. A verdade era que apenas a janela contava algo de novo para a moça cravada no sofá. Era um mundo de possibilidades unicamente conhecidas do alto e de longe.

As nuvens eram as únicas visitas, que adentravam o apartamento como velhas conhecidas e iam ficando. De quando em quando, embaçavam as ideias e a sanidade da moça. Assim, o único elo com a vida genuína continuava sendo a janela, mesmo atrás da massa cinzenta. Somente ela ainda a libertava dos momentos de torpor, quando vozes rompiam a altura e o vidro translúcido, trazendo-lhe notícias do mundo abaixo da névoa.

Finalmente o dia chegou em que a moça cansou do purgatório particular e da sua marca constante no sofá. O que fazer com a névoa sempre mais espessa? Seria tarde para fazer aquela nuvem dispersar? Queria tanto a janela e suas possibilidades! Queria ver a vida mais de baixo, que o alto era muito longe. Queria lembrar do pedacinho de prédio que via antes e conhecer todo o seu resto.

Através das pesadas nuvens viu, então, a esquadria se abrir em uma fresta. Parecia que a janela, enfim, transformara-se em porta. A moça a escancarou solenemente, cortando a névoa com o braço. Viu, então, o céu azul. Ali estava a pontinha do prédio. E o resto dele também, que passou por ela em uma fração de segundos.

Alçou seu voo. Para baixo. Para o chão. Para a rua com pessoas. Para a possibilidade da vida onde, agora, começava a chover.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Brumas

  1. Grazia

    Oi, Lorena

    Parabéns!

    Você escreve muito bem!

    Beijo

  2. Lorena ! Parabéns !
    Você é uma escritora nata !
    Se todos os jovens fossem assim como fosse o mundo seria perfeito, cheio de pessoas sensiveis, sinceras e com a alma pura !
    Grande beijo !
    Demetre

  3. Martha Gouveia da Cruz

    Gostei muito do que você escreveu, Lorena!
    Meus Parabéns!
    Já gostava da sua maneira de participar da comunidade dos tradutores, e agora virei fã de seus escritos também. 😉
    Virei aqui sempre que tiver um tempinho, de agora em diante.
    Beijão!
    Martha

  4. Luiz

    A mescla de seu talento e seus “insights” produz escritos que emergem da alma que para mim são verdadeiras preciosidades.

    Além de amá-la muito, a admiro demais.

    Mãe.

  5. leda

    A mescla de seu talento e seus “insights” produz escritos que emergem da alma que para mim são verdadeiras preciosidades.

    Além de amá-la muito, a admiro demais.

    Mãe.

  6. mon

    que bom! gostei bastante!

    abraço

  7. Realmente, Lorena, você escreve bem muito bem. De forma suave você vai nos conduzindo por sua escrita. Leitura muito boa. Ah, ainda bem que gostou dos causos. Espero que me conte sobre quando fez sua professora chorar, aposto que deve ser no mínimo muito hilário (pobre professorinha).

  8. Lorena, estou lendo vários autores que divulgaram no orkut, na comu Eu amo ler. Vc foi, até agora, a que mais gostei. Já tentei uns cinco….tanta coisa ruim e , de repente, você! Finalmente um bom texto, um talento. Adorei.Vou voltar. Bjs Anamaria

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