Transcendência

A muda havia aparecido em meu jardim de repente, posicionada estrategicamente na terra macia ainda não cultivada. Apesar da surpresa, para mim não foi realmente imperioso investigar o motivo de ela estar ali, mas me pareceu impreterível que a cuidasse bem. Um breve lampejo prestou contas do que tudo isso significaria mais tarde, uma epifania que durou quase nada e se apagou da minha mente, deixando apenas um ligeiro vestígio em meu espírito.

O começo do cultivo foi sutilmente desarticulado. Não porque eu não nutrisse alguma estima pela planta, mas por ser ainda desajeitada com as coisas do jardim. Foi logo, contudo, que minha empreitada prosperou e identifiquei nela, após profunda observação, as características de um carvalho.

Já enraizada ao solo, o verde da muda fugia com qualquer suspeita de infertilidade. Sentei na grama úmida para apreciá-la, envolvida por sua terna pequeneza. Estávamos ali, travando um diálogo sincero, ela parecendo dizer mais do que eu.

E foi de súbito que, diante dos meus olhos maravilhados, ela se agigantou. Em poucos segundos, criou raízes grossas e um tronco altivo. Fez brotar folhagens robustas e lisas, de onde a gravidade fazia deslizar grandes gotas de orvalho. Seus ramos apontavam em todas as direções; os raios do sol penetravam entre eles e refletiam na grama figuras bem acabadas, quase geométricas. O topo da árvore ergueu-se tão imponente que, agora, não era mais possível enxergá-lo. Os galhos dispersaram-se, amplos, por todo o jardim, transcendendo pontos longínquos, fora daquele restrito território.

Tudo foi invadido! Meu jardim, minha casa, minha rua. Eu mesma fui apanhada por um braço da corpulenta raiz, e procurei aninhar-me como pude na supremacia daquela amiga abundante e gentil. Era uma altivez ousada, mas não pretensiosa. Sua força e esplendor mal faziam lembrar a muda que há pouco habitava timidamente aquela terra. Não fosse o requinte com que tomava conta do lugar, eu diria que a árvore já nascera grande. Sua expansão, embora parecesse abrupta, era resultado de uma calculada laboriosidade. Carvalho, árvore da vida!

Uma imprevista tempestade caiu, então, na cena majestosa. Tão repentinamente como a árvore havia levantado. Acolhida entre as raízes e embaixo das sombras disformes, assisti. Vi a terra tornar-se lama, vi os raios destruírem as casas e os trovões espantarem os pássaros. Só o carvalho e eu permanecíamos no mesmo lugar. Tudo o mais havia ido embora com a ventania. Somente ele mostrava-se cada vez mais e mais altivo, tendo tomado para si todas as intempéries, registrando-as nos sulcos de seu tronco fortificado. E abrigava do infortúnio o meu ser inteiro, mas incompleto, dando-me de beber da sua seiva madura.

Era impossível, pois, voltar à verde pequeneza.

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8 Comentários

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8 Respostas para “Transcendência

  1. Carol

    Loreninha, não esqueci do seu blog e assim que a vida estiver menos corrida vou parar para ler, viu?!

    Parabens por conseguir colocar suas ideias em papel, digo, blog! rs, eu sei o quanto isso é dificil…

    Beijos querida e boa sorte com o blog!

    Carol

  2. Leda

    Sua “adultice” e seu jeito tão próprio de escrever me surpreendem quando penso que não será mais possível. Estou falando como mulher e como jornalista, não estou apenas “corujando” como mãe.

    Não fique mais um dia sem praticar esse dom.

    Amor eterno…

  3. Muito bom, poetisa!
    Vou olhar tb os posts anteriores a este. Gostaria que me “visitasse” tb: http://www.kagiulietti.blogspot.com

    Beijos
    Katia

  4. Luiz

    Além da árvore da vida, o carvalho é nobre e quase eterno.
    Mas este, em especial, tem muita sorte: poucos carvalhos têm uma declaração como esta.
    Pai.

  5. Luis

    Uma crônica quando bem escrita, com estilo próprio e apurado, não deixa de ser um belo exercício intelectual para ambos, algo como uma partida de xadrez.

    Primo.

  6. que surpresa esse seu blog! =]
    parabéns pela sensibilidade com que escreveu esse último texto. gosto de plantas, e eu mesmo já escrevi um “causo” parecido com a sua crônica!

    abraço, e felicidades!

  7. Norma

    Deixando de lado a “corujice”, é maravilhosa e inteligente a maneira como você expressa seus pensamentos! Esse texto sobre o carvalho é grandioso e belo! Muito orgulho de ter uma nora com tanto talento para a escrita, parabéns!

  8. Martha Gouveia da Cruz

    Lorena,

    Mais uma vez seu texto me encantou!

    Parabéns!

    Continue, escreva sempre.

    E, não se esqueça de me avisar quando seu livro for publicado. [;)]

    Bj,

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