Senhoras e senhores, o ônibus

Luz, câmera, ação! O ônibus entrava em movimento e junto com ele os meus pensamentos e atitudes do dia que acabava de começar. Os primeiros devaneios após sentar no banco eram sempre os mais corriqueiros: o tempo, a briga com a namorada, o sapato que queria comprar, o futebol do fim de semana. Eram apenas ensaios. Depois do aquecimento, as cortinas se abriam e o espetáculo começava. O ônibus foi o cenário de muitos dos meus maiores planos.

Foi dentro do coletivo, indo para as minhas últimas aulas na faculdade, que planejei como pediria minha namorada em casamento. Foram dias e mais dias olhando pela janela e visualizando mentalmente cada detalhe. Também foi andando em transporte público que fiz, meio assim por cima, as contas para adquirir o meu primeiro apartamento. E também, por ironia, as contas para comprar meu primeiro carro.

O ônibus também foi o palco de muitas comédias e dramas. Dentro dele, chorei em público pela primeira vez, indo ao velório de um amigo de infância que morrera tão cedo. Foi em movimento também que dei minha primeira gargalhada em alto e bom som, lembrando daquela piada sacana que haviam me contado minutos antes. E, entre lágrimas e risadas, também aprendi a ser caridoso: velhinhos, mulheres e crianças sempre em primeiro lugar.

Foram inúmeras atuações sobre aquelas grandes rodas. Já fui ator principal, coadjuvante e figurante, com performances que foram de brilhantes a ridículas. Passei gripe para muita gente, briguei com cobradores, fiz amizades, torci o pé, ensinei caminho para novos motoristas, derrubei os livros no chão.

Hoje eu tenho família e, por obrigação, um carro de quatro portas. Não vou mentir e dizer que sinto falta de andar de ônibus. Convenhamos, o desconforto e os transtornos de atrasos e de gente pisando no meu pé não compensavam o tempo que eu tinha para planejar ou conversar com desconhecidos. Mas reconheço que, sem isso, não saberia encontrar outros momentos dentro da minha rotina para sentar e pensar, como eu fazia nos milhares de ônibus que já peguei nessa vida.

Claro que, vez ou outra, ainda visito meu palco de outrora. Afinal, carros quebram, o preço da gasolina sobe e o ponto de ônibus é logo ali. E, apesar de serem hoje tão esporádicos, esses passeios despertam em mim os mesmos devaneios e atitudes. A diferença é que, agora, eu já estou perto de ganhar o assento preferencial.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Senhoras e senhores, o ônibus

  1. Luiz Carlos S.Pereira

    Lorena

    Você expressou,muito bem,que não bastam paisagens,conhecidas ou não,para espantar
    os fantasmas do incerto amanhã. Um ônibus pode levar você a qualquer lugar,menos onde você esconde suas esperanças e sonhos,seja qual fôr o ruído, dentro ou fora dele.Ao descermos de um ônibus,sempre o fazemos com uma bagagem mias pesada do que aquele de quando entramos.

  2. Aiara Quedima

    O onibus – e o ponto de parada- são lugares onde a gente tem contato mais próximo com a realidade. O carro geralmente nos isola, nos afasta dela e isso não é bom. Gostei muito dessa crônica. E das outras também, mas essa foi a preferida. Um beijo.

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