Arquivo do mês: outubro 2009

Transcendência

A muda havia aparecido em meu jardim de repente, posicionada estrategicamente na terra macia ainda não cultivada. Apesar da surpresa, para mim não foi realmente imperioso investigar o motivo de ela estar ali, mas me pareceu impreterível que a cuidasse bem. Um breve lampejo prestou contas do que tudo isso significaria mais tarde, uma epifania que durou quase nada e se apagou da minha mente, deixando apenas um ligeiro vestígio em meu espírito.

O começo do cultivo foi sutilmente desarticulado. Não porque eu não nutrisse alguma estima pela planta, mas por ser ainda desajeitada com as coisas do jardim. Foi logo, contudo, que minha empreitada prosperou e identifiquei nela, após profunda observação, as características de um carvalho.

Já enraizada ao solo, o verde da muda fugia com qualquer suspeita de infertilidade. Sentei na grama úmida para apreciá-la, envolvida por sua terna pequeneza. Estávamos ali, travando um diálogo sincero, ela parecendo dizer mais do que eu.

E foi de súbito que, diante dos meus olhos maravilhados, ela se agigantou. Em poucos segundos, criou raízes grossas e um tronco altivo. Fez brotar folhagens robustas e lisas, de onde a gravidade fazia deslizar grandes gotas de orvalho. Seus ramos apontavam em todas as direções; os raios do sol penetravam entre eles e refletiam na grama figuras bem acabadas, quase geométricas. O topo da árvore ergueu-se tão imponente que, agora, não era mais possível enxergá-lo. Os galhos dispersaram-se, amplos, por todo o jardim, transcendendo pontos longínquos, fora daquele restrito território.

Tudo foi invadido! Meu jardim, minha casa, minha rua. Eu mesma fui apanhada por um braço da corpulenta raiz, e procurei aninhar-me como pude na supremacia daquela amiga abundante e gentil. Era uma altivez ousada, mas não pretensiosa. Sua força e esplendor mal faziam lembrar a muda que há pouco habitava timidamente aquela terra. Não fosse o requinte com que tomava conta do lugar, eu diria que a árvore já nascera grande. Sua expansão, embora parecesse abrupta, era resultado de uma calculada laboriosidade. Carvalho, árvore da vida!

Uma imprevista tempestade caiu, então, na cena majestosa. Tão repentinamente como a árvore havia levantado. Acolhida entre as raízes e embaixo das sombras disformes, assisti. Vi a terra tornar-se lama, vi os raios destruírem as casas e os trovões espantarem os pássaros. Só o carvalho e eu permanecíamos no mesmo lugar. Tudo o mais havia ido embora com a ventania. Somente ele mostrava-se cada vez mais e mais altivo, tendo tomado para si todas as intempéries, registrando-as nos sulcos de seu tronco fortificado. E abrigava do infortúnio o meu ser inteiro, mas incompleto, dando-me de beber da sua seiva madura.

Era impossível, pois, voltar à verde pequeneza.

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Lacuna

Dois lápis apontados, três canetas, uma borracha. Tic-tac. Uma ida ao banheiro, um pulo na cozinha. Tic-tac. Um biscoito mordido, meio copo de suco. Tic-tac. Um piso frio, dois pés sem meias. Tic-tac. Uma janela embaçada, muita chuva lá fora. Tic-tac. Um tapete velho, nenhum cão à vista. Tic-tac. Óculos sujos, uma flanela perdida. Tic-tac. Um jornal ao pé da porta, isso nem é notícia. Tic-tac. Noite em claro, madrugada escura. Tic-tac. Um desespero abeirando, um dever esperando. Tic-tac. Ponta quebrada, caneta sem carga, borracha que borra. O tempo que passa, o cérebro que não engata, a mente desabitada, a insônia desperdiçada. Uma folha em branco. Tic-tac-tic-tac-tic-tac. Bloqueio de escritor.

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Oração à alma

Tira de dentro a discórdia que o homem plantou. Arranca o que ele criou e em mim semeou. Não quero saber vingada mais nenhuma semente desse quinhão. Essa cor vermelha só se for do meu sangue imaculado. Deixa longe de mim o rubro das baixas profundezas, larga a chama trépida e a forquilha cínica. Penetra em mim um espírito anil resplandescente e embebe os que me seguem. Ilumina a mais íntima percepção e faz hoje o que não fiz por mim nunca. Deixa de lado a desonra e o injúrio. Viola apenas os limites da boa fortuna. Eleva a mente, que o espírito é puro. Sê menos palavras e mais sentimentos. Olha para dentro e chora para fora. Sublima com as lágrimas e abranda com um sorriso. Aceita a temperança, o perdão e esta oração. Que eu não quero ser Ele, mas sim para Ele.

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Pré-história

Minha tão querida L.,

Você ainda não existe para o mundo e ainda não sei ao certo quanto lhe falta para chegar. A minha certeza é que não precisei de nove meses para conceber e parir a idéia de você. Sei que a L. do meu imaginário é apenas um rascunho. A L. obra-de-arte-de-Deus será muito mais divina, com direito a essa redundância.

Por enquanto, o seu formato etéreo me faz imaginá-la entre as estrelas mais distantes; ao mesmo tempo a sinto concreta, como se já no ventre estivesse. Já posso pensar no que será e como será quando nos encontrarmos de fato. Já penso nos primeiros passos, nas segundas palavras, nas terceiras brigas, nas quartas pazes, nas quintas comemorações, nas sextas musicais e no sábado ensolarado. Domingo descanseramos ao luar.

Entendo que você não é só minha. Mas somente meu escudo lhe abrigará e sou egoísta. Por vezes não lembro da colaboração alheia na construção do seu ser. O que não significa que minha gratidão a ele não é eterna – de que outro modo poderia eu usufruir de sua existência? Ao meu lado, o alheio também aproveitará: essa sua maior recompensa.

Imagino você agora, querida L., com as pernas balançando e escutando meus devaneios. Sussurrando no meu ouvido que a pressa não se faz necessária. Você chegará, seja quando for. Está reservada na melhor e mais alta prateleira, onde só eu posso alcançar. Gosto de pensar assim, mas o fato é que é você quem me alcança. Aqui nessa Terra descerá; eu é que não posso subir até você.

L., você é tão maior que eu! Mas seu começo será tão pequeno que caberá nos meus braços. Sua presença já me é tão forte! Mas a fragilidade do seu choro exigirá todos os meus cuidados. E quando finalmente você alcançar meu tamanho, eu é que diminuirei e me aninharei no seu colo, procurando alento na sua experiência jovial.

L., querida, não se demore. Sua própria existência clama por você. E de você, a minha já é dependente.

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Pré-estréia

Estréias, que pena, são únicas.

Como o primeiro choro.

O primeiro passo.

O primeiro beijo.

A primeira dança.

O primeiro amor.

O primeiro filho.

Quem dera eu estreasse todos os dias.

Como se todos os nasceres do sol fossem os primeiros.

Como se todos os fins de tarde fossem únicos.

Como se a lua crescesse sempre nova, toda cheia e nunca minguasse.

Como se houvesse sempre a primeira estrela para o primeiro pedido.

Como se a música do seu “eu te amo” fosse sempre uma surpresa.

Como se andar fosse um exercício consciente.

Como se existisse sempre o primeiro gole mas nunca a gota d’água.

Como se toda onda tivesse um primeiro pulo.

Como se, eternamente, eu afundasse e emergisse nesse oceano que é a vida.

Relembrando o útero e a minha primeira estréia.

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Sobre fertilizantes e desarmamento

Um corpo fino, com ombros e cabeça pendentes, como uma flor que já perdeu o viço. O homem parecia que havia murchado. O quadril pronunciado para frente servia de apoio para as mãos pousadas na cintura, fazendo com que os braços lembrassem folhas saindo de um caule magro.

Se lembrasse apenas uma flor, seria poético. Mas era áspero como um filme de bang-bang no deserto. E que flor nasce em areias escaldantes? Poderia, no máximo, ser um cacto se melhorasse a postura. Espinhos já tinha. Mas projetar, daquele jeito, o quadril para frente dava mais a impressão de que sacaria uma arma.

Assim como os caipiras pistoleiros, sempre fazia cara de intimação. Olhava as pessoas de cima, porque mesmo murcho era alto e conseguia ver o topo de suas cabeças. E aquilo o fazia crescer, ainda que curvado. Ver o cocuruto de toda a gente era um poder inexplicável. Era como ser um girassol perto de marias-sem-vergonha, ele que não tinha vergonha de nada.

Não se importava de ser mal-encarado como um atirador da velha Hollywood. Tampouco percebia que era como um solo infértil. Os espinhos nunca deixaram um beija-flor se aproximar. E assim acabou se acostumando com seu deserto particular e, embora se considerasse um girassol, só olhava de cima para baixo, nunca o contrário. O que ele não sabia era que as flores, com o tempo, ficam despetaladas. Inevitavelmente, mostram ao mundo o seu miolo. A seiva deixa de percorrer seu corpo e elas ficam cada vez mais vulneráveis, como um bandido de bang-bang que se distrai e leva um tiro.

Um dia o vento sopra e leva a última pétala. Qualquer dia, o mocinho aperta o gatilho e gasta sua última bala. Daqui a pouco o beija-flor se aproxima da falta de espinhos. Ele pensa que perdeu seu escudo. Mas vejam: está, apenas, desarmado.

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Liqüidação

No liqüidificador da vida, a água vem em onda, marola, redemoinho. Sempre líqüida. Nos deixa em estado de ebulição, de fervor, de gelo no vapor. Inunda a sala, o quarto e entra no sapato. Encrespa o cabelo, cola a roupa e faz bolha. Embaça o espelho. Deixa o caminho escorregadio. Sempre líqüida. Carrega o milagre no esperma. Esvai a esperança na menstruação. Destila a tristeza e a alegria incontida na lágrima. Degusta, na saliva, os (dis)sabores da estrada. Expulsa o mal pela urina. Corre a vida pelo sangue. Sempre líqüida.

Não seque a água. Ou tudo estará liqüidado.

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