A chatice dos rostos deixava claro o que a espera fazia com a sala. Por detrás da porta azul-bebê, o silêncio dos corpos invadidos em exames, análises, biópsias – braços e pernas moles, regados em sedativos, simulando o sono dos justos. Do lado de cá, acompanhantes de pés balançantes miravam o teto como que a filosofar, embora os olhos vazios denunciassem o aborrecimento de não se conseguir pensar em nada.
Sons entediantes e repetitivos por vezes se sobressaíam às respirações: tocava o telefone, batia a sola do sapato no chão, soava estridente a campaínha, viravam-se as folhas das revistas num vlap-vlap incessante. Alguém, então, resolveu abafá-los todos.
A televisão clareou acima das cabeças enfastiadas. Fizeram-se o som, as cores e os movimentos. Abruptamente, os pés pararam de sacolejar, as mãos acalmaram e os olhos atentaram. As faces chatas arredondaram. Era um riso obrigatório que passava na tela em linhas curvas e coloridas. Era animado, o desenho!
Lorena
Você descreveu,de forma perfeita, o ambiente de uma sala de espera,toda ela formada por pontos de interrogação? Todos gostariam de ver transformada em salão de baile os dançarinos semi-vivos ,tentando dançar sobre um diagnóstico
mascarado,sem a virtude de uma esperança atordoante.
Felitações!…