Eu não tenho olhos, nem boca, nem pernas. Para você eu sou apenas um vulto, caminhando assim, tranqüilamente, no mundo das idéias de Platão. Eu existo porque sou idéia ou a idéia existe porque eu sou? Você nunca vai saber, nem eu. Porque você, para mim, é a mesma coisa. É essa virtualidade imensa que me faz pensar nessa coisa louca de não ter rosto. Eu lhe desenho e você faz um esboço de mim. É o máximo que alcançaremos. Depois disso, desligamos o transformador e deixamos de existir.
O seu não-mundo é de que cor? Quando eu me despeço de você fica tudo púrpura, parece céu em fim de tarde. O sol vai esquecendo de brilhar e eu de pensar em você. Esqueço que você respira, come, digita, é vivo. Porém é logo que chega o dia seguinte e, junto com as tomadas, nos conectamos novamente. Que maravilha ser moderno-da-revolução-tecnológica! Me conte as novidades!
Mas aí você propõe me conhecer, pede foto ou presença. Não confunda as coisas! Sou etérea e, você, virtual; não entendeu? Já me conhece muito bem, pois sabe o que vai aqui dentro. Da carcaça você nunca precisou. Uma breve descrição eu posso dar, porque sei que você jamais chegará à verdade absoluta. Prefiro que me deixe quietinha no plano da imaginação, pode ser?
Mas deixa essa discussão para amanhã, porque preciso ir. Já gastei energia demais por hoje, se é que você me entende.
Que venha o púrpura!
Lorena
Penso que as pessoas sem rosto são as mais visiveis,porque frutos da nossa imaginação.
De que servem os olhos que não vêem,a garganta que não grita,as mãos que fazem gestos imóveis,
o corpo que é vulto,o vulto que é ar desenhado,o mistério compartido?
Você esquartejou muito bem o homem morto,sem autópsia.